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Canos destroem via romana
09-07-2003 16:56
PD
Vestígios arqueológicos danificados por causa de conduta de água para vivendas
SOCIEDADE
Uma das principais vias romanas do Algarve, construída há 2.000 anos, foi seriamente danificada há dias, durante a construção de uma conduta para levar água a algumas moradias em Moncarapacho, concelho de Olhão, disse à Lusa uma arqueóloga.
Sandra Rodrigues, empenhada em documentar as escassas vias da época romana que restam na região, prepara um livro sobre o assunto, a lançar em Outubro, no âmbito de um trabalho com o apoio do programa «Medoc», da União Europeia.
«Há poucos dias, tive que voltar a este local, com um fotógrafo, para documentar este troço, e qual não foi o meu espanto quando verifico que a maior parte dele estava destruído», disse a arqueóloga à Agência Lusa, junto ao monte de pedras retiradas do caminho - ao longo de cerca de 30 metros - para que a vala fosse aberta.
Segundo a especialista - a única mestra em vias romanas a sul do Mondego - a constatação provocou a fúria de alguns habitantes locais, indignados pela falta de cuidado do empreiteiro, que trabalhava para a Câmara Municipal de Olhão.
«Um senhor estrangeiro, mais consciente deste atentado cultural chegou a dizer-me que preferia continuar sem água do que ver a via destruída», disse.
O troço danificado, a norte da aldeia de Moncarapacho, situa- se junto à ponte dos Caliços, construída já no século XVIII e integra- se numa das duas vias que saíam da antiga cidade romana de Balsa - hoje, Luz de Tavira. A outra ligava directamente a Ossónoba, hoje Faro.
Estrada de ligação a São Brás de Alportel - vila que servia de ponto de partida para os que viajavam em direcção a Pax Julia - Beja - esta é a mais bem preservada via romana do Algarve, segundo Sandra Rodrigues.
Nas pedras amontoadas que sobraram dos trabalhos são visíveis os trilhos provocados pelas rodas das carroças que, durante dois milhares de anos, viajaram pela via.
«Este calcário meio marmorado é de grande valor histórico, pois só tem par numa outra via, em Terras dÈEl Rei», afirma a especialista.
Sublinha que existe um programa comunitário para preservação de vias e caminhos romanos - no âmbito do qual trabalha - e que «deveria competir às autarquias ter o máximo cuidado nesta matéria», lamentando que não tivessem sido dadas instruções ao empreiteiro para que a vala fosse aberta ao lado do caminho, onde há um terreno para o efeito.
Acentuando que não é a primeira vez que estes problemas ocorrem, Sandra Rodrigues chama a atenção para o risco que corre um outro trilho - em melhor estado de conservação, mas objecto de mais melhoramentos em épocas posteriores - a cerca de 500 metros da zona danificada.
A eventual reconstrução do troço é agora «teoricamente possível», mas torna-se necessária a abertura de um lastro e o uso de materiais «rigorosamente seleccionados», bem como a intervenção de um especialista na matéria, afirma a arqueóloga, de 29 anos, cujo trabalho de doutoramento, a concluir em breve, versará esta temática.
Apesar dos esforços da Agência Lusa, o presidente da Câmara de Faro, Francisco Leal, entendeu não se pronunciar sobre a matéria.
No entanto, o presidente da Junta de Freguesia de Moncarapacho, José Marcelino, reconheceu que os trabalhos - que atribui à Câmara Municipal - poderiam ter sido efectuados ao lado da via.
O autarca assumiu que pressionou a Câmara para a conclusão da obra, embora alegue desconhecer o número de habitações beneficiadas pela empreitada.